Eu, se fosse a vocês, ia dar uma vista de olhos!!
Não faço ideia onde caio
já despedacei a vida toda, no chão
cacos, cacos e uma jóia solar quebrada
livre de ser toda, emancipada.
Que bem que sabe cobrir-me de chão
ser um chão no afinal
roçar-me no debaixo de tudo
e fazer-me bem com tamanho mal.
Pó, sabe-me a pó a boca que não tenho
roçago-me mais do que ontem
e aos olhos meus enodoados estou maior
inventando uma pele de libertino desenho.
...
Nos passos que dou,
Sem sandálias,
Meus pés beijam a terra,
Apascentando-se o corpo débil
Nas ervas, nas flores, nas crisálidas.
Nesta união boa e frutuosa,
Em que está seca a boca do vilipêndio
E dos actos a vileza foge,
A alma congraça-se, rodopia melodiosa,
Com a corpórea parte, desonrosa.
Cesse, sem interrogar, a ofensa, a barbárie
Do homem reles que grunhe e desgraça,
Que perigar faz ...
Escondi todo o meu café num arcaz;
E porque me curvo ao paladar, sou escravo dos sentidos,
Contíguo ao café é o beijo que apraz.
E nesta dança que me enlaça,
São corpos, prazeres e frutos profícuos!
A vida parece ser vida sem freio na boca que estilhaça.
Ao peito aberto já não ofereço nada,
Ele que faleça com a razão, a consciência,
Pois me farta e odeio o ser eu na maneira racionada!
E viajo, e não páro, e jamais a pele seca
Na viagem húmida do toque.
Atrás do biombo, há uma senhora que peca
E revoltada sussura ao ouvido de si
Que a vida fede e eu, que dali não sou,
Encho-me de febre, de estados de mal passar e já sou apenas sombra dali.
Nos pequenos cálices onde, agora, a visão tolda
Há calor e virtude de sangue,
Há a volatilidade que me envergonha e ao pensar não solda.
E há, no meio de mim, o drama do juízo,
Na boca e na pele de mim há o que não há, só assim;
Em mim não há nada que para mim diferente seja de prejuízo!
Assim sou eu, Bruto e Pedra e Sangue,
Cansado de ser pessoa.
Na macilenta e imunda Rua Áurea,
Onde a trote o passeio me aprazia,
Cresce o bisonho menino inditoso
Que somente tem no boné a alegria.
E se me toca a música o colorido da memória,
Em passos de desajeitada e envergonhada dança,
Meu caminho, antes feito de escape insípido,
É agora sonho, liberdade e bonança!
Não sabendo o menino, novato e simplório,
Que grande é o favor que me faz,
Agradece com vénia humilde e jubilosa
O cunho que no boné já jaz.
E o dia que assim principia, dourado na terra suja,
É para mim capricho não desprezável,
Que me sustenta o sorriso como coisa invejável.
Para o menino é apenas um dia mais!
Enovela-se-me a razão nesta maranha urbana,
Bruta e vítrea, impregnada da sinfonia do acordeão,
Do monocórdico e desulado estender da mão.
E a música que apazigua dá grave impulso à ebulição.
Um súbdito da banca, que jaz ainda arfando, olha e troça;
Parece-lhe errado o calçar, a nenhuma moça.
Não desenlaço este desalinho do pensar, nunca.
O corpo cedo cede e corre, mas atrás, no copo argiloso,
Fica o firme achar que o cunhado metal é torpe, indecoroso.
Contorce-se em mim o que de mim não é ninguém
E retorno, quero ouvir mais um pouco. Tilinta o metal, o som não confunde.
O músico agradece, a melodia finda e a vida, essa, contunde!
O juízo que agora exponho ortograficamente estará sempre e de forma inevitável incompleto. Não abordará as protuberâncias mais proeminentes do problema da maneira quiçá correcta ou desejável; é, antes de tudo mais, um esboço do pensar.
Não tenhamos dúvidas de que este denominado acordo ortográfico é uma decisão, não iminentemente, mas apenas, política. Quando falamos deste acordo falamos em nada mais do que política, a arte de dirigir as relações entre os Estados. O falacioso conceito de Lusofonia é outra das artimanhas políticas com as quais somos constante e tediamente confrontados. É um conceito que surge quase por geração espontânea, não há para ele uma definição sólida e coerente, é um artefacto, uma outra rédea. Neste sentido, não é com estranheza que encaramos um dos argumentos em defesa desta barbárie: a invocação da unidade da Lusofonia através da uniformização dos padrões de correcção da língua escrita. Nenhum argumento poderá ter menos sentido do que este. O que se diz que se quer fazer é tornar uniforme algo que, em concreto, está em processo de divergência, algo que evolui independentemente. São muitos e relevantes os factores que contribuem para a divergência e, acima de tudo, são de índole cultural e social, o que impossibilita que a unificação se faça somente através da ortografia. Acreditar nisso é crer numa utopia que não tem sequer razão de ser.
Assim, este acordo, é um dolo logo no desígnio, é uma manifestação cega de uma pseudo diplomacia que tenta emergir na procura de uma projecção avarenta. É a tentativa tola de forçar aquilo que sozinho se muta, aquilo que intrínseca e extrínsecamente se transforma sem mediação. E é isso que o homem controlador, manipulador não quer deixar acontecer, a mudança natural de um quase organismo vivo, a sua divergência e aquisição de especificidade.
Neste contexto é imperativo que se não deixe que sejam aqueles a quem provoca prurido e inquietude o admitir que há uma língua, dentro da por eles criada Lusofonia, que pode ser, afinal, mais do que uma, a tomar decisões não fundamentadas técnica e cientificamente influenciando assim todo o quotidiano de milhões de usuários da língua, em todas as suas formas, a quem a esta, em análise primeira, pertence.
Este é apenas um motivo, talvez o que mais se concerne com o âmago ou o surgimento do problema, que me faz discordar de maneira tão veemente deste acordo ortográfico com pretensões irreais de unificação de uma comunidade lusófona, que não é mais do que uma entidade política espectral.
Corrói-se o poente nas entranhas,
Nas vísceras que a fidalguia posterga
E despreza.
Esta agremiação farta de patranhas
Não tem como durar, pois à liberdade a loucura verga
Como cera de vela acesa.
As fundações assaz débeis deste colosso metafórico
São cheias de vis preceitos. Nelas esmiuçar é sujar as mãos,
Anojar-se nas hediondas e sórdidas vivências.
Nada que o corpo exponha, eufórico,
É mais do que impostura e fealdade.
Este estar é um dolo no propósito.
Sabei-vos violentados na honra de serdes Homens,
Pois neste poiso ocidente há quem de vós faça fantoches.
A vós governalho abjecto deste lugar ocidente,
Que o sol põe em recato, eu vos anuncio dor, feridas na soberba.
Tende para vós, que fruís por ora o tempo florescente,
Que um tumulto como os de outrora se agiganta.
Sabei que debaixo do ouro pavoneante e torpe
Há indigência tamanha que da morte se diz sorte.
Mas não vos alegreis, pois não há no Homem que sucumbe na liça
Ideia outra diferente de liberdade, noção tão limada de justiça.
Surge, pois, na rua que desprezais, entre a fome e a enfermidade,
Uma agitação úbere que fala de honra e dignidade.
Não há já como findar o que da gente assim provém
E se quereis livrar-vos de maior má sorte guardai como óbolo o vintém.
Nada neste poiso de gentalha sobejará
E das ideias, que o nada não narra nem fantasia,
Restará somente aquela que o honrado cantou
Antecipadamente, como pedaço de loucura, como heresia!
Cobre-se já a criança, no brotar terreno,
Com o manto acre e crispado da humanidade,
Aceitando que a razão que a auxilia e condena ao vil veneno,
Seja nenhuma razão, seja insanidade.
Assim se fere o renovo com um bronze que não se vê,
Se lhe oferece a vida logo lha furtando
E, ternamente, no balanço do berço de ouro se prevê
Futuro faustoso, uma alma de princípios se emancipando.
Este temporão pôr no lixo o fruto da gente,
Fazer dele joguete no burgo amuralhado,
É controlo, dominação e ditadura ingente
De uma democracia de véu que traz o povo assaz toldado.
Insta que finde a cegueira, o homem tosco, vexado.
Urge que se encete a queima do denário cão,
Que se fira com espada ou lança o iníquo Estado
E, em quimera admirável, cresça outro Homem, uma razão!
A criança troça de mim,
Tropeço e ruborizo.
Não sei ser homem
Sem a vergonha da condição!
Manifesto, desde já e antes de tudo o mais que meu coração e minha alma possam expelir, o meu absoluto repúdio para com a aprovação, por parte do Governo, da proposta do segundo protocolo modificativo ao acordo ortográfico da língua portuguesa. É de barbárie que se trata e é assim que a ela me referirei adiante.
Quando no coração a fome se abate
E no peito da carcaça estilhaçada nada mais cabe que o perecer aparente,
Minha mão tem outra vontade: um assento no papel diluente.
Quando escrevo tenho dividida a dor!
Até o murmurar mais frouxo do coração enamorado,
Fecundante,
Ateia, na boca e na ideia, como magma estouvado,
Vontade intáctil de liberdade.
O amor é um perfume inflamável,
Indeclinável.
Ecoam-me, compungido se encontra o ser, no ouvido interno
Dizeres e doutrinas várias, ditames que tanto me molestam.
Indago sobre as amarras, nós e vínculos morais. É lúdico este inferno!
Digo-me numa clausura de jovem, sei-me numa inadaptação pungida
Que me leva o tempo e, habilmente, torna a hora num ensejo extraviado.
Há pequenez no meu estado, na consciência uma ferida.
Mas, e porque a condição humana impõe, doravante prosélito me substantivo.
Acerco-me de ditos vários, díspares, moldando a imutabilidade de mim.
Entregarei tal esforço a Sísifo, eu abraçarei esta apoptose em que vivo!
No asilo onde me guardo e o corpo rodeio de seios,
Labaredas que, de tão avultado número, me atiçam a preguiça,
Os livros corrompem-me.
Já não sei ler ficção, originalidade ou esta singular demência.
Mas que reles conhaque por mim fala?
Não sei de aguardente gaulesa nesta baiuca!
Adiante.
É cruel a propaganda que faz de mim a etílica postura,
Opera-se a crucificação do banal, sabe-se nada do ser.
É facto, nada faço, de pouco sirvo,
Mas aprendi a viver sem que de vida precisasse.
Pois, neste estar há um prenúncio pronunciado de uma morte.
Escolhi; a consciência da escolha é já ensaio filosófico,
Eleva-se nos emaranhados e retalhos do raciciocínio.
Afoguei-me em boémia almejando uma liberdade que me deixou em cativeiro,
Dependente.
Pois que se perca a linguagem nesta panaceia para a elevação nenhuma do ser. Um dia agradecerei; assim intento.
A loucura que me abraça
É a razão que o gesto estilhaça
E ainda hoje fui tanto eu
Que não sei o que magiquei em mim,
No âmago de mim, onde carece a graça!
O caiado flume que cinde a terra
E flameja quando a lua toma do sol o lugar
É substância e bijutaria, quietude nas ribas,
Da vila que se tinge de um real estar,
Que se escreve num abraço de serra.
Aqui, onde até o tempo não quer escoar-se,
Luz a pele, é acetinado o coração e, o permanecer, egrégio.
No deleite suculento da natura gravita o dentro
Do corpo, desfaz-se a boca numa volúpia táctil
Que dá ao ar o murmúrio lúbrico, um par a ecoar-se.
As ruas emaranhadas num preceito fortuito,
Calçadas e estreitas, a Côja dão, quase no nome, a confusão.
Nelas desabrocham flores como atavios,
Pisam-se pesares do cerne, inaugura-se novo intuito.
Aqui sempre me vai a dor, no Alva o pranto afogo!
A face erudita no sorrir é, de todas, a que mais cativa.
É um bruaá que se aninha no tórrido do colo,
Que se mantém, titânio da expressão, além da força,
Na reminiscência pura do corpo que incentiva.
Bramindo como as procelas de Adamastor, o a promontório reduzido,
Minhas iras movem, em moção desvirtuada, a cor dos mares,
A leveza jubilar de um céu magnânimo e, como pseudo cataclismo induzido,
A queda instigam de uma miríade de lágrimas frouxas.
Mas, no melhor olhar do fenómeno inaudito ou teatral,
O quase olímpico esforço do carácter abstracto e lasso
É uma outra mentira de uma farsa tão solene no ser artesanal,
Que, até a primitiva tentação, o peito aberto e a boca seca, desvenda por abraço!
Talento, mostra-me quem vive perto de deus, é mais criar lama,
Dilacerar a verdade que não sossega, oh!! insolente e malvada,
É forçar o pútrido, atender ao narcótico manjar com a alma violada.
Vive a vida, pregam. Esta não vale mais do que sonhar!